Não Lave as Mãos

mãos sujas
“Vento solar e estrelas do mar
Você ainda quer morar comigo?
Eu só preciso ter você por mais um dia
Ainda gosto de dançar
Bom dia!
Sol, girassol, verde, vento solar
Você ainda quer dançar comigo?
Se eu morrer não chore não
É só a lua
É seu vestido cor de maravilha nua
Ainda moro nesta mesma rua
Como vai você?
Você vem?
Ou será que é tarde demais?
O meu pensamento tem a cor do seu vestido…
Vento solar e estrelas do mar […]”
Solar. Um belo dia de sol pós dias nublados de grande calor atípico para estação vigente. Ele por distante. Ela por aí. Não foram os mais breves sorrisos que flagraram suas canções. Seja o antes do dormir, ou por próximo do acordar. Faz-se por ali, entre pensamentos, livros, dvd’s piratas e estantes. Cada instante. Curtir e desfazer. Ninguém sabe, além dela e dele, mas ali permanece a notificação, onde nada há. E se simplesmente ela não voltar? E se ele acordar, como quando se tem um sonho muito bom que se queira voltar a dormir para poder saber o final…
 Depois do positivo para seu querer materno, a vida não foi por simples como mostra a foto que ele permanece a admirar, em cima da mesa de sua sala, com um sorriso de canto de boca dela. Sorriso dela, sem maquiagens odontológicas, sem plásticas faciais, com os primeiros sinais de tempo já visíveis. Outro dia ela houvera reclamado a diferença de viçosidade de sua pele. Ele conseguira ver apenas a garota de sempre, com a mesma pinta discreta no rosto, com as mesmas marcas de expressão provocadas pelo riso. Por um ano ou mais, ficara ela a viver sozinha, na cidade de Salvador.
-Volto pro pampa semana que vem! – diz ela, animada, por telefone.
-Isso é um convite pro Uruguai ou você está dizendo que vai vir aqui pra Porto?
-Isso é um arruma logo um espaço pra mim na tua casa, porque vou morar contigo!
-Essa também vai pro teu livro de piadas do final do ano?
-Pelas minhas contas já são 13 livros de piadas do final do ano! Okay, não é piada. Consegui a transferência mais rápido que pensei. Morreu um velho em Porto Alegre. Vou substituí-lo. Agora crê?
-Sim. – Diz ele, em tom não muito receptivo.
-Esperava mais ânimo de você. Lembra de ter sempre um sim pra mim?
-Lembro. Te disse um sim. Não te prometi um sim feliz. Te prometi um sim. Como faremos?
Eles não se conversavam por meses. Trocavam pequenas frases nas redes sociais, um bom dia ou boa noite. Mas nada de muito pessoal. Houvera ele nesse tempo de solidão, envolvido-se com uma estagiária do jornal. “Belas pernas!” foi o que ele pensou quando viu a estagiária pela primeira vez. Bianca era seu nome. O jeito ainda sedutor dele aproximava-se da diagramadora. Bianca transpirava sensualidade. Do jeito que arrumava seu cabelo quando caia sobre os olhos até quando juntava o lápis que procurara o solo. Em alguma hipnose que Bianca provocara nele, ele cedeu. Suscetível a seus longos cabelos dourados como o girassol. Há uma semana Bianca houvera alugado seu apartamento para ir morar no apartamento dele, junto dele. Estavam como em lua de mel. Não houvera casamento, afinal, não era de Bianca que ele era noivo.
-Acho que ficamos um pouco distantes nesses meses. Tá sendo muito corrido tudo aqui pra mim. Dois semestres que voaram. Gente com sotaque estranho. Não são salvadorenses, ainda não me adaptei com o tal do soteropolitano  – ela suspira – Bom, como vão suas coisas? Como vai você?
-É, sempre te contei tudo… Pegaram o Amaral conversando com passarinhos e outras coisas mais malucas… enfim, me colocaram no lugar dele por tempo indeterminado.
-Se é só isso, tudo bem. Eu entendo que é uma pressão maior, ainda mais que teu livro tá na finaleira.
-Não. Não é só isso. Tem uma garota… Bianca – ela o interrompe.
-Nome de travesti! Haha… Não precisa nem continuar. Nunca quis tua fidelidade. Cachorros são fiéis. Humanos são felizes.
-Oras! Por que diabos você sempre me interrompe?
-Desculpa…
-Ela tá morando aqui. Não posso colocá-la na rua.
-Hum… – ela respira de forma profunda – Eu pensei que tínhamos… Esquece. Eu sempre fui boba. Semana que vem te ligo.
-É só isso que você vai me dizer?
A vontade dela era de se teletransportar pra frente dele e dar um murro bem dado na cara daquele cafajeste. A fama dele nunca foi de santo. Nem a dela. Bom, provavelmente eles já foram cretinos com muita gente. Um vulcão prestes a entrar em erupção foi o que ela conteve em suas breves palavras.
-Por hoje, pode ser. Beijo, meu bem. – ela desliga.
Ele não disse que descumpriria seu pedido. Ele não negou um filho, nem um lar, nem os metais que ele houvera dado dentro daquela caixa preta que fazem mulheres chorar. Ele não negou o crescer da barriga, nem o envelhecer das faces. Ele não negou ou desmentiu os rios de poesias que foram a ela delegados. Ele saiu rumo a cidade baixa. Os tempos mudaram e não eram necessários festas open-bar para ele poder encher a cara. Andando por mais um pouco, catou uma roda de pagode. Não que ele gostasse de pagode, pelo contrário. Mas o que lá se encontrava era um pouco dela. Da alegria que um dia eles roubavam um do outro, um para o outro, por uma cama, por uma cobertura azul de céu, por uma ladeira qualquer, por uma sintonia em uma rádio aleatória de segundo plano. Bianca ligou para ele.
-Oi, meu liiiindo!
-Olá. – diz ele.
-Por que não chegou em casa ainda, meu gostosinho? Comprei uma lingerie nova que eu sei que…
-Vou chegar tarde, se eu chegar.
-Então eu já vou dormir. Beijo, meu Cacarico.
No início ele gostava desses apelidos que Bianca o dava. Mas uma semana acordando, tomando café, almoçando, trabalhando e indo dormir com essa multidão de coisas bregas, ele já estava estupefato. O celular de Bianca vibra. Ela lê, coloca algumas coisas dentro de uma bolsa e sai.
Em Salvador, depois do balde de água fria, ela não sabe o que pensar. Resolve apenas não pensar. Compra uma vodca não barata, uma lata de leite condensado e alguns Tang de pêssego. Baixa umas músicas da Vera Loca, faz uma batida alcoólica, tira da bolsa um Pocket da editora L&M, da Aghatha Christie, que havia comprado com o ticket alimentação e lê umas vinte páginas. Para quem ela estava tentando se mostrar forte? Ela não sabe. Ela não precisa. E chora. Chora pelo quão longe ela está de sua cidade. Chora pela quebra de planos. Chora pela cor dos olhos dele que eram tudo, menos da cor dos dela. Chora pelas espinhas das costas dele. Tira do dedo a aliança que ele houvera dado a ela e joga pela janela do quarto andar. Ela escuta:
-Mãe! Olha o que eu achei!
-Alguém deve ter perdido. Leva pra brincar, filha.
Ela abre a porta da casa, vai até a escada, pensa em ir até a rua para achar essa criança e pedir a aliança de volta. Ela não o faz. Volta para seu sofá, sua vodca e sua Aghatha. Desiste da Aghatha. Ela já não conseguira entender os personagens, nem seus nomes nada brasileiros, nem os assassinatos. Promete amanhã começar a ler desde o início de novo. As passagens já estavam compradas pela Azul. Chegaria segunda-feira de manhã. Hoje já é sábado. Nada de interessante nas redes sociais além das coisas de sábado, gente anunciando para o ex que está feliz sem ele, gente anunciando que vai tomar whisky para substituir a água, gente lamentando a solidão, gente declarando amor a própria cama. Patéticos, ela pensa. Ri, pois mais patética é ela. Tem a grande idéia de colocar todas suas roupas em cima da cama, montar looks de festa e se fotografar para postar e ver se alguém ainda curte sua maquiagem. Assim também já classifica as roupas que deverá levar para o sul e as que doará por lá mesmo, afinal, ninguém merece pagar valores a mais na hora do embarque. O vestidinho vermelho foi o campeão da noite. Maquiagem não muito carregada nos olhos, batom vermelho, salto e carteira pretos com detalhes em dourado, relógio dourado em um dos pulsos, no outro muitas pulseiras, brinco preto perolado gigante e a correntinha que ganhou de sua mãe que nunca tira ou substitui. Os móveis ela já havia negociado com o dono de seu apartamento. Não havia mais nada para fazer naquela noite. A vodca a olha. Ela olha para a vodca. O som vai para Kid Abelha. Ela resolve escrever, como por muito já fizera. Manda-lhe um e-mail.
Ele voltando completamente torto para casa, reclamando por não ter dinheiro para o táxi, reclamando por não lembrar de suas senhas do banco. Ele poderia pedir para alguém levá-lo, poderia dar a chave para um desconhecido dirigir até sua casa, poderia esperar o porre passar. Mas não. Ele foi dirigindo. Alguém mais embriagado do que ele invade a contra mão. Para desviar, acaba por bater em um poste. Ele não se lembra de nada até acordar as seis da tarde no HPS. Algumas fraturas.  Ele nunca foi muito bom com números, o único número que sabe de cor é o do jornal e da NET. Ele dá o número do jornal para uma enfermeira. Pede para avisar a Bianca que ele está no hospital e assim que der ele liga. Como ele tinha plano de saúde, o transferiram para outro hospital, onde ficou em um quarto só para ele. Ele ficaria no hospital por mais até amanhã no mínimo enquanto faziam exames mais detalhados. Segunda-feira entregam um buquê de rosas brancas no quarto dele.
O vôo chega a Porto Alegre sem muitos atrasos. Os dias estavam quentes mesmo sendo inverno, o que não ocasionava neblina nem maiores complicações. Ela deixa suas malas em um guarda-volumes do aeroporto. Vai direto ao jornal, já que o telefone dele dava fora de área ou desligado. Lá um rapazote dá a notícia do acidente. Ela diz que é prima dele e o garoto acaba por dar o endereço do hospital e o quarto em que ele está. Quando ela chega no hospital ele está fazendo exames e o horário de visita é do meio-dia até o meio-dia e meia. Ela resolve aguardar o horário para vê-lo. O sorrir toma conta do quarto. Ela diz:
-Você não podia esperar um pouco pra já começar a me dar preocupações?
Ela dá uma rosa vermelha para ele e dá um beijo na testa do doente.
-Pensei que você chegaria por quarta ou quinta.
-É que eu queria muito te ver no hospital.
Ambos riem. Ela olha para o buquê em cima do balcão lateral, onde guardam travesseiros, lençóis e cobertores.
-A Bibi é mais gentil que eu pelo visto. Mas ela errou na cor.
-Não sei quem enviou. – diz ele.
-Tem um cartão. Vou ler para você. “Desculpe-me, Cacarico. Não sei se você já sabe, mas pedi demissão lá do jornal pois me contrataram como efetiva da ZH. Vou morar com um amigo lá perto. Já tirei minhas coisas  da sua casa. Melhoras. Bianca.”
-Como as coisas são rápidas! Saio para beber num dia e quando volto os dinossauros não existem mais!
-Pois a travesti te deu um bolo! Bom, agora que estou aqui e já terminei com seu casamento, destruí seu carro, você perdeu 2 dedos do pé esquerdo e está moribundo em uma cama de hospital, posso te abandonar, ir para a França lançar um livro e ficar rica, linda e glamourosa. E meu plano diabólico estará concluído! Muhahaha!!!
-Ou você pode esperar eu sair daqui as três horas da tarde, e vamos direto para meu apartamento, temos nossos 7 filhos, escrevemos um livro, vamos pra França, abrimos um residencial geriátrico e ficamos ricos, lindos, não tão glamourosos e felizes. Que acha?
-Pode ser. Pode ser muito bom!
-Você disse que perdi 2 dedos do pé esquerdo?
-Disse. Mas não era verdade.
-Ufa! – diz ele.
-Você perdeu só um dedo. O outro só não vai mais se mexer!
Chegando na casa dele, percebe-se que Bianca levou algo além das coisas dela. Levou o sofá, a televisão, a mesa de centro, a geladeira e o Mingau. O Mingau era o gato dele.
-Te enviei um e-mail. Se a garota não roubou a sua internet, dá uma olhada depois. Ah! Antes de escrever o e-mail, joguei fora a aliança… mas caixinha eu trouxe.
Ela vai ao banheiro. Ele pega o celular dela e lê o e-mail, que dizia:
“Por algumas vezes passei por você na rua, e não te vi. Uma vez comprei um ingresso de um cara que juro, só podia ser você, mas você não me viu. Por quantas vezes você esteve na minha mão e eu te deixei pelo vão dos meus dedos. Por quantos verões, por quantos carnavais desejei o seu riso solto, sem sequer saber da sua existência. Lembro quando te encontrei na biblioteca da escola trocando seu recreio por um livro, era uma projeção de você. Eu te projeto até hoje. Lembro quando eu no lado direito da rua direita via você no lado esquerdo ajudando um cego a atravessar a rua. Você sempre tão esquerdo. De partidos à teorias. De canções às suas mulheres. Ah! Por quantas eu esperei você se livrar. Por quantas te mostrei que eram boas e te disse para prosseguir. Eu só quero que sejamos felizes. Tantas melhores do que eu. Eu abdicaria de você para o seu bem. Só que hoje não é isso. Sou o seu bem, meu bem. E mesmo que por um telefonema eu quisesse te detonar com uma bomba nuclear, é só você que tem esse dom de me acordar. Amar é bem melhor que ver o amor passar. Se algum dia me disse que sou solar, você é o meu vento. Tudo bem se não der certo, meu bem, nós chegamos tão perto. Não desisti de você.”
 
Ela sai do banheiro.
-Em nenhum momento eu preferi alguma outra. Se fosse preciso mil anos, eu te esperaria, fosse só ou acompanhado. Sempre te esperei.
Ele puxa ela para dar um beijo. Ele está em uma cadeira de rodas pois quebrou as duas pernas. Ela sorri.
-Se eu pudesse te dava um abraço apertado.
-Mas você pode. Quebrei as pernas, não os braços.
-Não é por isso. É que a Bibi levou seu papel higiênico, seu sabonete e a torneira do banheiro.
-Oras, só não me levou as cuecas! E suas mãos… dane-se! Quero seu abraço sem lavar as mãos mesmo, mas vá com calma se não tu mata o véio!
Passagem da música Um Girassol da Cor do seu Cabelo, de Ira!
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